Há uma série de filmes – Jogos Mortais, no original “Saw” – em que o personagem principal, um psicopata portador de câncer no cérebro em estado terminal (Jigsaw), resolve “dar uma lição” em diversas pessoas que não sabem aproveitar a vida, gente que tem de tudo (bens materiais, saúde, família), mas prefere não assumir suas responsabilidades e viver a vida em sua plenitude, com gratidão.
Não quero comentar aqui o estilo do filme (suspense, com cenas grotescas), mas sim as ações do Jigsaw, que têm um “valor moral” muito interessante.
O psicopata inicia seus jogos mortais com o médico (dr. Lawrence Gordon) que tratava de seu câncer cerebral: um doutor ainda jovem, com uma bela família, muito conceituado profissionalmente, mas que pouco se interessava pela pessoa do paciente, agindo friamente com o doente e preferindo dedicar maior interesse no relacionamento extraconjugal que mantinha com uma médica-residente. Ou seja, uma pessoa extremamente egoísta e ingrata e que pouco ou nada se interessava pelos outros, mesmo em relação às pessoas mais próximas do seu convívio.
O psicopata ficou extremamente indignado com aquela atitude e resolveu “ensinar” aquele médico a valorizar o que tinha (sua vida profissional e sua família); a lição foi simples (o médico deveria cumprir uma prova que não vem ao caso no momento): ele o acorrentou pelo tornozelo num local isolado, mas deixou ao alcance da vítima uma serrinha. O detalhe é que a serra não era forte o suficiente para cortar a corrente; se ele quisesse mesmo sair dali com vida, teria de cortar o próprio pé…
Assim, aquele médico foi “chamado para um despertamento”; até que ponto ele estaria disposto a perder uma parte de seu corpo para continuar vivendo?
Foi cruel o sofrimento infligido àquele sujeito; em razão do julgamento feito pelo psicopata, enquanto estava acorrentado ele teve tempo para refletir sobre a sua situação. Ele só estava ali porque alguém resolveu punir a sua falta de compromisso profissional e familiar.
Seu pensamento pode ser sintetizado nesta fala: “Como vim parar aqui? Minha vida estava em perfeita ordem…” Jigsaw fez diversas outras vítimas, todas com histórico de desprezo pela própria vida: uma moça saudável que preferiu arruinar sua saúde com o uso de drogas; um rapaz que tinha um bom emprego, mas que fingiu estar resfriado para faltar ao trabalho e ir passear; um homem com bom nível social, com boa saúde, mas que um dia cortou os pulsos tentando se matar (na verdade ele não desejava o suicídio, mas apenas “chamar a atenção”).
Há muitos outros personagens e a cada um deles foi dado um castigo: para continuar vivos, o preço seria alto.
Estes exemplos são extremos, mas, justamente por isso, didáticos. Toda essa narrativa é apenas para ilustrar o que invariavelmente ocorre com nossas vidas: Deus nos dá tudo o que precisamos (não confunda aquilo que você precisa com aquilo que você deseja), mas muitas vezes somos ingratos e desprezamos essas dádivas.
Há jovens que estão empregados, mas reclamam do salário e do chefe, sem perceber que ter o fato de estar empregado é um privilégio.
Outros, mesmo sendo saudáveis, reclamam da estética do seu corpo (não gostam de sua altura, dos cabelos, etc), mas não percebem que isso é secundário (a beleza é vã e passageira).
Há ainda aqueles que reclamam dos pais (”minha mãe pega muito no meu pé”, “meu pai não me deixa fazer nada”), e deixam de notar que eles zelam por sua vida com amor.
Tristemente, muitas vezes essas dádivas só são percebidas quando subitamente retiradas. Mas aí já é tarde.
Caso semelhante se deu com o filho mais jovem da parábola do filho pródigo. O sujeito vivia bem, tinha família, dinheiro, era estimado, mas preferiu “viver a vida” (no texto original “vivendo com esbanjamento”). Até que ele se viu no meio dos porcos disputando a mesma comida e, caindo em si, disse: “Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome!”
O dr. Lawrence Gordon escapou da morte, mas teve de perder um pé.
O filho pródigo foi restaurado, não sem dano e humilhação.
Que Deus nos dê sempre um coração grato para reconhecermos tudo quanto temos recebido d’Ele, que nós dá muito mais do que merecemos.
Daniel Gomes de Oliveira
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